FEBRAPSI - Federação Brasileira de Psicanálise

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Sonho / Ato: A Representação e seus Limites

XXV Congresso Brasileiro de Psicanálise

Sonho / Ato: A Representação e seus Limites

28 a 31 de outubro de 2015
Local: Maksoud Plaza Hotel – São Paulo – SP
Mais informações, em breve.


CONGRESSO

 

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SONHO/ATO: A REPRESENTAÇÃO E SEUS LIMITES

Eixos e indagações temáticas do XXV Congresso de Psicanálise

Preâmbulo

O próximo congresso brasileiro de psicanálise coincide com a comemoração do centenário dos textos da metapsicologia de 1915. A metapsicologia articula um repertório de insights da clínica. Insights são golpes/espantos da percepção – après-coup, na bela e irredutível tradução francesa danachträglichkeit - que movem o saber psicanalítico. A representação é o conceito chave do pensamento de Freud, e que compõe as molas correspondentes de obras de seus descendentes: o simbólico em Lacan; a fantasia em Klein; o pensar em Bion e o crescimento em Winnicott. Porém, é o ato que está na origem da cena da representação, na sua trama e malha afetiva. “No início era o ato” conclui Freud Totém e tabu. Ato esse, do assassinato do pai, advindo num enredo darwiniano tecido aos sabores da fantasia kleiniana, que desemboca no luto, na separação, em um projeto humano erguido sob os auspícios da representação. O conflito constitui, portanto, a lógica da cena na qual o sujeito, desde sempre, se insere. O sonho seria a representação desta representação, “a outra cena”(Fechner encantando Freud), tornando-a passível ao alcance da percepção. Na clínica e na vida, uma coisa é o agir (agieren, Freud) que resiste ao plano da análise desde seus inícios – isto é, viver a cena ou cair dentro (anhaime, Freud) da lembrança (“deite-se, feche os olhos; o Sr.(a) vai ver ou vailembrar de algo”, dizia Freud) – o que impede o acesso à consciência, à percepção e à palavra. Por isso, age aquilo que se teme ver ou lembrar! Outra coisa é a atuação, a evacuação somática e motora que denunciam a falha, senão a falência do esforço de origem na montagem da representação junto ao outro, – como percepção e memória – a partir das moções pulsionais. A atuação suscita, por isso, uma espécie de reivindicação desesperada por uma construção, uma historia. Tal manifestação da falência e fragilidade das representações, da constituição do sonho ante às demandas da cultura, desafiam o trabalho analítico e o lugar da psicanálise em nossos dias.

Eixos teóricos, clínicos e técnicos

  1. Sonho e Ação

O sonho ou a representação como condições da ação é um dos eixos ou vieses clássicos do trabalho analítico. Identificar na experiência analítica o afeto, a vivência na cena e no sonho, a partir das quais se esboça a ação (a famosa insistência de Freud sobre a liberdade do paciente na ação a tomar) – algo que se contempla na coluna 6 ao longo das fileiras B até H da grade de Bion -, é o cerne do trabalho analítico. O afeto como percepção de inervação interna em via de descarga, remonta àexpressão das emoções (Darwin) do ser dos inícios da vida. Essa convoca o adulto como interpretante de supostos estados afetivos. Imagens de palavras, ajuda alheia do adulto, que dariam forma ao estreito (angustia em latim) apelo do corpo, ao seu desespero, gerando o repertorio afetivopela via conversiva diante do efeito traumático do desconhecido. Tal implantação primeira, histérica, do mundo humano seria posta, com a perda do objeto e instauração do recalcado, ao teste da subjetivação. E, ao vislumbrar um si, ao adentrar a trama edípica, da castração e da falta, o gozo conversivo do corpo transforma-se, em parte, em afetos e percepções, ou seja, no empenho do pensar inerente à descoberta da alteridade. Dissolver os impasses e remover os escolhos (os sintomas) nesse doloroso caminho, onde se abre mão do terreno incestuoso da fantasia – aceitando a castração, a falta, alcançando a posição depressiva e assumindo os afetos no pensar – tem sido a via mestra da análise. E continua sendo um dos desafios principais da clínica, a da neurose.

  1. Do ato ao sonho

Fora da neurose, não é a dissolução (losüng, Freud) que está em questão, mas a construção do sonho, da representação. É o trabalho do adulto (objeto) em suas possibilidades psíquicas de nomeação e, portanto, de construção que devem ser interrogadas e retomadas na via principal de certas demandas cada vez mais crescentes na contemporaneidade. A fuga no agir e as atuações são objetos de uma reassunção do sonho, ou melhor, da conversão do ato em sonho, em pensar. A psicopatologia do ato de delírio da alma e de seu soma corpóreo, e suas correspondentes denúncias (das falhas) do trabalho do objeto impõem o grande desafio ao analista. A provisão narcísica ao paciente, existindo em sua companhia, servindo-lhe de duplo, permite a passagem do plano alucinatório da percepção para a fixação (prägung) desta em traços. Trabalho esse, de figurabilidade (darstellungbarkeit), compondo o setor principal da fabrica do sonho, fornece as condições de representação, da passagem do irrepresentável para o representável; da construção da experiência em sonho e representação.

  1. Limites da representação: cultura, sintoma e criatividade

Mesmo após a inauguração da nova concepção econômica onde a matéria psíquica primária se rege no equilíbrio lábil entre duas tendências opostas, de silêncio e de excitação, de morte e de vida (predominando a primeira), disponível aos efeitos do trabalho da cultura e seu mensageiro – adulto/objeto -, Freud ainda acreditava em 1921 nos sonhos, narrativas e mitos; ou seja, que a linguagem seria o meio de elaboração representativa em troca da via destrutiva do narcisismo primário – alucinatória e projetiva do ato – onde o regime do pai perverso da horda reverteria o caminho adquirido do reconhecimento da falta. Porém, logo, a partir de 1923, Freud reconhecerá que a pressão da cultura, a sublimação e os meios de retenção em prol da inclusão na civilização, poriam limites econômicas às possibilidades da representação e suas entranhadas percepções, os afetos. Ante tal desfusão pulsional, o aparelho psíquico recorreria a modos de sustentação da separação do eu pelas vias primitivas de gozo do sintoma além de outros modos de denegação da falta, como a rachadura e a divisão do eu. As fugas no ato e as atuações, e seu gozo, poderiam encontrar consolo em formas intermediárias, de assunção dos sintomas e de uma criatividade em modos de subjetivação passiveis de conciliação junto a essa forma de inadequação fundamental da vida humana na cultura.

São três eixos, em conceitos freudianos, para o reconhecimento teórico, técnico e clínico dos desafios que a clínica e a cultura colocam para o analista contemporâneo. Espera-se que os trabalhos do congresso permitiriam a reflexão em torno desses eixos.

Daniel Delouya (Diretor do Conselho Científico da Febrapsi)