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Revista Brasileira de Psicanálise

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BIOGRAFIAS

Joyce McDougall

Veja a biografia de Joyce Mcdougall em pdf.

Neozelandesa radicada na França, desde os anos 50, é reconhecida internacionalmente por ser uma psicanalista de casos “difíceis” e investigar temas da clínica contemporânea. Autora de seis livros, traduzidos para cerca de dez idiomas, vários capítulos de livros, diversos artigos e conferencista internacional. Seu reconhecimento ultrapassou os círculos psicanalíticos e em 1992 foi convidada por Dalai Lama para participar em Dharmasala, na Índia, do seminário Sleeping, dreaming and dying: an exploration of consciousness with the Dalai Lama, que reuniu outros seis conferencistas internacionaisi.

O pensamento da autora é construído por meio de “metáforas teatrais” que permitem visualizar cenas sutis do processo psicanalítico e do funcionamento psíquico de seus pacientes. Nesse espaço, cria e desenvolve conceitos originais, tais como: neo-sexualidade, adicção, sexo-adicto, normopatia, desafetação, entre outros.

A originalidade do “método McDougall” está associada a uma “teorização flutuante” como contrapartida da “associação livre” do analisando, inseparável dos movimentos transferenciais e contratransferenciais presentes no tratamento psicanalítico; onde a apresentação dos relatos clínicos e a teorização estão de tal forma inter-relacionados que as novas contribuições da autora emergem como fatos naturais de um desenvolvimento teórico e clínico.

Vida

McDougall nasceu em Dunedin, na Nova Zelândia, para onde seu avô paterno, um inglês chamado Carrington, imigrou no final do século XIX. De grande talento para a pintura, inicialmente seu avô tornou-se professor em uma pequena escola na área rural. No final de cada ano, organizava com os alunos um espetáculo teatral. As peças tornaram-se uma tradição familiar e passaram a ser organizadas pelos filhos e netos de Carrington.

Na adolescência, aos 17 anos, Joyce conheceu a Psicopatologia da vida cotidiana, de Freud, e inicia seu percurso na psicanálise. O primeiro passo foi cursar psicologia na Faculdade de Artes e Ciências da Universidade de Otago, onde leu todas as obras de psicanálise da escolaii. Na graduação, teve acesso às palestras de Donald Winnicott, destinadas às mães e transmitidas pela rádio BBC.

O teatro permeia a vida e as obras de Joyce McDougall. Encenando uma peça de Dylan Thomas, no clube de teatro da Universidade, como atriz, conheceu o seu primeiro marido, Jimmy McDougall.

Em 1950, acompanhando o seu marido que buscava melhores condições de trabalho, Joyce mudou-se para Londres, com os seus dois filhos, e iniciou a formação psicanalítica na Sociedade de Psicanálise Britânica. Na Inglaterra já revelou uma habilidade que teria efeitos em toda sua trajetória teórica e clínica: a capacidade de transitar pelos conflitos políticos e teóricos presentes nos grupos psicanalíticos e ser respeitada por todos os seus pares, sem necessariamente filiar-se a quaisquer desses grupos.

Vale notar que nesse momento a Sociedade Britânica estava fracionada entre os seguidores de Anna Freud e os de Melanie Klein; mas na ocasião da escolha de seu analista didata, McDougall preferiu um membro do Middle Group. Nesse período também trabalhou como psicóloga de crianças no Hospital Maudsley. Ainda mais, iniciou o curso de formação teórica com Anna Freud e acompanhou Winnicott em visitas ao Hospital Infantil de Paddington Green.

A vida em Londres e a formação psicanalítica caminhavam bem, com uma única exceção: seu marido não encontrava trabalho regular. Em 1953, ele recebeu uma proposta da UNESCO para trabalhar em Paris, o que implicou nova mudança para os McDougall’s.

Na França, Joyce retomou sua formação e começou sua análise com Marc Schlumberger seguida mais tarde de uma segunda análise com Michel Renard. Seguiu os seminários de Maurice Benassy, com quem fez também supervisão, e participou de grupo de terapia de adolescentes sob a direção de René Diatkine.

Entre 1953 e 1954, enquanto Joyce McDougall estava em formação, a Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP) viveu uma profunda contenda envolvendo Sancha Nacht e Jacques Lacan, que levou à cisão da Sociedade. Nesse momento, Joyce procurou os dois psicanalistas para conhecer os argumentos que fundamentavam tal conflito. Não se convenceu das idéias apresentadas por seus interlocutores e seguiu sua formação no Instituto da SPP, ao mesmo tempo em que participou regularmente dos Seminários de Lacan – que os proferia, àquela altura, na Sociedade Francesa de Psicanálise – sem filiar-se a esse grupo teórico.

Em 1961, McDougall foi eleita membro titular da Sociedade Psicanalítica de Paris, onde ocupou várias funções institucionais e é membro de várias associações e instituições psicanalíticas. Na França, foi uma “embaixadora” da psicanálise inglesa, convidou Hanna Segal, John Klauber e Donald Winnicott para proferirem conferências na capital francesa.

Sua vida familiar também sofreu mudanças. Os dois filhos casaram e foram morar na Inglaterra e no final dos anos 50 conheceu seu segundo marido, Sidney Stewart, psicanalista e doutor em literatura, que faleceu em março de 1998.

Obra

As obras de Joyce McDougall revelam uma maneira singular de abordar a clínica psicanalítica. Outra peculiaridade da autora é apresentar seus relatos clínicos com a permissão de seus pacientes.

Na sua produção teórica plural – mas não eclética – McDougall desenvolveu conceitos freudianos e aprofunda noções de Klein, Margareth Mahler e Bion; teve também uma interlocução profícua com Pierre Marty e colaboradores da Escola de Psicossomática de Paris, Janine Chasseguet-Smirgel, André Green, entre outros. Mas na confecção de suas obras, ela tem a companhia, sempre presente, de dois pensadores com percursos diferentes: D. Winnicott e Piera Aulagnier. Com esta autora, Joyce manteve uma sólida amizade e parceria teórica por mais de quatro décadas.

Sua primeira obra, em colaboração com Serge Lebovic, foi editada em 1960, Un cas de psychose infantile: étude psychanalytique, reeditado sob o título Dialogue avec Sammy: contribution à l’étude de psychose infantile (Diálogo com Sammy). Na sua tradução para o inglês teve o prefácio de D. Winnicott. É o relato clinico de uma análise de um garoto psicótico americano, de 9 anos, que Joyce atendeu ao longo de oito meses em 1954.

Nessa análise, a autora tece algumas importantes considerações acerca da psicose, mas também já elabora noções teóricas que estarão presentes em toda a sua obra futura; afirma, por exemplo, que o sintoma é uma construção singular e dramática que tem o objetivo de permitir a sobrevivência psíquica do indivíduo e tentativas de cura de si mesmo.

Após a publicação da análise de Sammy seguiram-se quatros livros: Em defesa de uma certa anormalidade – Teoria e clínica psicanalítica (1978), Teatros do Eu (1982), Teatros do corpo – O psicossoma em psicanálise (1989), As múltiplas faces de Eros – Uma exploração psicanalítica da sexualidade (1995).

Esses trabalhos assumem uma unidade na metáfora teatral. Em Teatros do corpo, utiliza a alegoria para compreender os fenômenos psicossomáticos de um ponto de vista essencialmente psicanalítico vis-à-vis o da abordagem psicossomática, que tem como expoente Pierre Marty. Tais fatos, segundo a autora, estão relacionados às vicissitudes e “falhas” no processo de individuação de cada pessoa que formatam a subjetividade de cada um.

Nesse livro, em especial no segundo capítulo, denominado A matriz do psicossoma, Joyce desenvolve as origens da somatização, um modo de defesa arcaico, anterior à constituição da linguagem, resultado de falhas no processo de internalização que constroem a identidade subjetiva. A somatização, então, pode preencher os vazios abertos pela tensão – inevitável na criança – entre o desejo de fusão e o de individuação e apropriação psíquica do seu próprio corpo.

Dessa forma, a somatização está associada à economia do afeto. O que vale dizer que tais pacientes estão mais próximos de um “agir arcaico” sob a forma de uma descarga direta ou explosão somática; expulsando do psiquismo – e derivando-os para o corpo – as percepções e fantasias ou pensamentos que suscitam afetos insuportáveis; os quais estão associados às vivências traumáticas e precoces presentes no desenvolvimento infantil.

Joyce denominou esse mecanismo de defesa de desafetação, que deve se agregar aos processos clássicos descritos por Freud: recalque, denegação e recusa. Tal mecanismo, também, é a chave para compreender outro tema da agenda de pesquisa de Mcdougall: a normopatia. Noção, que no léxico da autora, é um sintoma de sofrimento psíquico, no bojo de uma organização patológica específica.

Em linhas gerais, esse quadro nosológico revela um paciente adaptado à realidade externa, mas que apresenta uma impossibilidade estrutural de entrar em contato com a sua própria vida subjetiva. O que estabelece barreiras, algumas incontornáveis, e impasses na evolução do processo analítico. Esse tema foi abordado no livro Em defesa de uma certa anormalidade.

Em As múltiplas faces de Eros, Joyce dá continuidade às idéias apresentadas em Teatros do corpo, agora destacando aspectos da sexualidade humana e inovando conceitualmente em noções que permitem ampliar a compreensão teórica e clínica dos fenômenos sexuais. A autora inicia o prefácio com a seguinte assertiva: A sexualidade humana é inerentemente traumática. Nesse sentido, amplia e desenvolve a noção de trauma, sem rupturas com as idéias freudianas. Acontecimentos cotidianos e vulgares da existência humana podem ser traumáticos – o contato com a alteridade do outro, a descoberta da diferencial sexual etc – e não apenas os fatos excepcionais que devem ser considerados como tal.

O desenvolvimento da sexualidade também é marcado pelos conflitos e eventos traumáticos precoces que remontam ao momento fusional da mãe com o bebê, a força que se irradia dessa condição primitiva irá compor a base de todas as expressões de sexualidade, amor e erotismo em outras etapas da evolução humana. No momento em que a “sexualidade arcaica” predomina na realidade psíquica, as relações amorosas e sexuais aproximam-se do medo da castração, da perda de limites corporais, do aniquilamento ou da morte.

Dessa forma, a erotização extremada, em alguns casos, pode ser o meio de superação de tais sofrimentos traumáticos, de autocura etc. Joyce denominou de neo-sexualidades os roteiros eróticos incomuns – que podem assumir diferentes desenhos, disfarces, objetos fetichistas, jogos sadomasoquistas, entre outras escolhas – e diferentes de uma sexualidade dita como normal. Esses movimentos foram construídos para dirimir e/ou reparar os defeitos e falhas da identidade subjetiva do indivíduo.

No entanto, essas “montagens” não são equivalentes à perversão. Esse termo para a autora se aplicaria então e apenas às trocas sexuais nas quais o indivíduo perverso é totalmente indiferente às necessidades e desejo do outro.

Para McDougall, pode-se traçar um ponto de tangência entre a noção de neo-sexualidade e a perversão, nas quais as práticas e/ou roteiros sexuais são buscados, incansavelmente, à maneira de uma droga, com o objetivo de dissipar estados mentais dolorosos ou insuportáveis.

As obras de Joyce McDougall foram traduzidas para o português, excetuando sua última obra sobre Winnicott, de 2003, e são listadas a seguir:

Para saber mais sobre a vida e a obra de Joyce MCdougall indica-se: Menahem, Ruth (1999). Joyce McDougall. Psicanalistas de hoje. São Paulo: Via Lettera Editora e Livraria.

Somam-se a essas obras artigos psicanalíticos e capítulos em livros onde encontraremos a riqueza e originalidade do pensamento da autora, que se move não à margem das escolas psicanalíticas, mas no terreno fértil existente entre elas.

Resenha elaborada por Carlos Cesar Marques Frausino, membro do Instituto de Psicanálise Virginia Leone Bicudo da Sociedade de Psicanálise de Brasília.