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Revista Brasileira de Psicanálise

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BIOGRAFIAS

Marie Langer

Veja a biografia de Marie Langer em pdf.

(1910 – 1987)

Marie Glass Hauser de Langer nasceu em Viena, em 1910, e faleceu em Buenos Aires, Argentina, em dezembro de 1987. Para falar dessa verdadeira ativista pelas causas da psicanálise e dos direitos humanos, valho-me do trabalho de Elisabeth Roudinesco e Michel Plon, em Dicionário de Psicanálise, editado pela Jorge Zahar, e do verbete escrito por Janine Puget no Dicionário Internacional de Psicanálise, editado pela Imago.

Marie Langer foi uma psicanalista alemã que se radicou na Argentina, a partir de 1942, tendo sido membro fundador da Associação Psicanalítica Argentina – APA, ao lado de Angel Garma, Celes Ernesto Cármo, Arnaldo Rascovsky e Enrique Pichon-Rivière. Desenvolveu sua clínica tendo permanecido como membro da APA durante 29 anos. Marie, Garma e Cármo foram os primeiros analistas didatas e supervisores do núcleo fundador da APA. Tornou-se figura eminente na história da psicanálise na América Latina, ao lado de H. Pichon-Rivière.

Nascida no seio de uma família burguesa, judaica e assimilada, sua infância – como a de toda sua geração – foi marcada pela guerra e pela queda do império austro-húngaro. Na adolescência, começou a ler Marx e Freud, sob influência da diretora de sua escola. No início da década de 30, Marie casou-se, iniciou os estudos de medicina, divorciou-se e aderiu ao Partido Comunista Austríaco, que foi logo depois decretado fora-da-lei, junto a todos os partidos de esquerda.

O banimento dos partidos de oposição traria sérias conseqüências na vida dos psicanalistas em formação na Sociedade Psicanalítica de Viena, engajados politicamente. Para Freud, o comprometimento político dos psicanalistas poderia gerar represálias por parte do governo, o que o levou a optar, junto com seus discípulos, pela exclusão de militantes de extrema esquerda. Essa decisão afetaria Marie Langer e, entre outros, Wilhelm Reich (1897-1957), criador do freudo-marxismo e artífice de uma concepção da sexualidade mais próxima da sexologia que da psicanálise.

Inicialmente anestesista, Marie Langer interessou-se depois pela psiquiatria, quando fez análise com Richard Sterbas. A participação nas atividades da Wiener Psichoanalytische Vereinigung (WPV) proibia qualquer ligação política. Ao ser denunciada por uma analisanda, Marie foi excluída do grupo de alunos. Mudou-se então para Berlim, onde acompanhou os seminários de Helene Deutsch e fez supervisão com Jeanne Lampl-de Groot.

Obrigada a exilar-se por causa do nazismo, em 1936, emigrou para a Espanha onde trabalhou nas Brigadas Internacionais como médica anestesista. No front, conheceu Max Langer, seu segundo marido, e juntos partiram para o Uruguai e logo depois para a Argentina. Para evitar conflitos naquele país, separou sua prática clínica de sua atividade política e somente a Pichon-Rivière confidenciou sua ligação com o Partido Comunista Argentino. Fez uma segunda “análise de supervisão” com Cárcamo.

Na APA, Marie Langer foi supervisora, diretora de seminários, secretária, membro da comissão de ensino, presidente, diretora da Clínica Psicanalítica Enrique Racker. Lecionou no instituto e foi psicanalista didata durante 29 anos. Foi membro fundador da Sociedade de Medicina Psicossomática de Buenos Aires e da Associação Argentina de Psicoterapia de Grupo, tema ao qual dedicou grande parte de sua pesquisa.

Marie Langer teve quatro filhos: Tomas, Martin, Ana e Veronica. Ela se interessou pelas mulheres que tentavam conciliar o desejo de emancipação ao de maternidade. Em 1952, publicou Maternidad y sexo, o qual se tornou um clássico da literatura psicanalítica argentina. Nesse livro, em que descreve o lugar da mulher na história, ela relata o caso de uma paciente estéril que engravidou após nove meses de tratamento psicanalítico.

Construiu uma concepção unitária do corpo biológico e do corpo psíquico, fundada na medicina psicossomática e no kleinismo. Após longa reflexão histórica e teórica sobre a sexualidade feminina, Marie Langer concluía que, do ponto de vista do inconsciente, existia na mulher uma relação constante entre a aceitação do orgasmo e do prazer e o desejo de maternidade. Sua tese contrariava as idéias feministas da segunda metade do século XX. Foi a partir desse trabalho que Marie Langer aprofundou a causa do feminismo, estudando os mitos que cercavam a vida de Eva Duarte Perón (1919-1952).

Personalidade contestadora, Marie sempre manifestava o desejo de que a psicanálise estivesse no centro das transformações sociais do século e não se limitasse a reproduzir gerações de terapeutas conformistas. Além de tenaz defensora da psicanálise, foi também defensora do marxismo e do feminismo. Lutou durante toda sua vida contra o fascismo e a esclerose do freudismo ortodoxo, conservando ao mesmo tempo suas qualidades de clínica.

Assim como Wilhelm Reich e Otto Fenichel, Marie Langer considerava o freudismo e o marxismo como duas possibilidades para a libertação do homem. O freudismo, ou a psicanálise, transformaria o sujeito por via da exploração do inconsciente e o marxismo transformaria a sociedade pela luta coletiva em busca de justiça social.

Em 1969 integrou o grupo Plataforma que visava transformar a política da psicanálise e as modalidades de formação dos psicanalistas. Em um congresso da IPA em Viena, em 1971, ela afirmou, em sua apresentação do texto Psicanálise e/ou Revolução: “Desta vez não renunciaremos nem a Freud nem a Marx”. Seu texto não foi aceito para publicação. Marie Langer demitiu-se então da APA, juntamente com 30 didatas e 20 alunos em formação. Ocorria naquele momento um acirramento das lutas contra a dominação militar na Argentina e a retirada de Langer e do grupo que a seguiu representou um duro golpe para o freudismo naquele país.

Com a volta de Juan Perón ao poder, os adversários políticos foram perseguidos por grupos paramilitares. Marie Langer supervisionou o trabalho de um estudante de psiquiatria que desejava apoiar os prisioneiros torturados. Nessa época, foi ameaçada pelo esquadrão da morte e emigrou para o México. Em 1981, Marie Langer formou a brigada México-Nicarágua de internacionalistas para a saúde mental e lançou um plano de desenvolvimento de métodos curativos inspirados na psicanálise.

Conforme observou N. Hollander, “Marie Langer e seu grupo notaram os efeitos psicológicos da repressão política e do exílio forçado. Observaram, entre os refugiados, a multiplicação dos casos daquilo que chamaram de ‘dor gelada’. As pessoas atingidas tornavam-se incapazes de chorar a perda dos que amavam”. Elas apresentavam sintomas múltiplos: despersonalização, distúrbios psicossomáticos etc.

As publicações de Marie Langer revelam várias linhas de pesquisa e deixam perceber sua ênfase na influência do contexto social e cultural sobre o campo da teoria psicanalítica: a sexualidade feminina, a esterilidade, as fantasias eternas, o “porque” da guerra, a psicanálise de grupo, o anti-semitismo, certos problemas metodológicos relacionados com o ensino da psicanálise, e problemas técnicos suscitados pela análise didática.

Em Ideología e idealización (1959), Langer repensa as sociedades psicanalíticas sob o ângulo da especificidade de sua disciplina e das exigências que pesam sobre os analistas no seio das instituições em certos períodos históricos.

Sobre Marie Langer, escreve Janine Puget que “sua linha de conduta, sua busca da verdade, seu interesse pelo ser humano, especialmente pela mulher, fizeram dela uma psicanalista em sintonia com a sociedade do seu tempo e capaz de explorar todos os aspectos do mal estar de nossa civilização” (Mijolla, 2005, p. 1065).

Onde encontrar o pensamento e a obra da psicanalista (algumas referências):

Referências bibliográficas:

Resenha elaborada por Maria de Lourdes Teodoro, membro do Instituto de Psicanálise Virgínia Leone Bicudo da Sociedade de Psicanálise de Brasília.