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Revista Brasileira de Psicanálise

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BIOGRAFIAS

Piera Aulagnier

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(1923 – 1990)

“No momento em que a boca encontra o seio, ela encontra e absorve um primeiro gole do mundo. Afeto, sentido, cultura estão co-presentes e são os responsáveis pelo gosto das primeiras gotas de leite”. (Piera Aulagnier).

Nascida em 19 de novembro# de 1923 em Milão, na Itália, Piera Spairani Aulagnier é considerada uma importante psicanalista que se notabilizou por desenvolver, entre outros trabalhos, temas relacionados à feminilidade, às perversões e à clínica das psicoses. Entre os muitos livros que publicou destacam-se: A violência da interpretação (1975), Os destinos do prazer (1979), Em busca do sentido (1980) e O aprendiz de historiador e o mestre bruxo (1984).

Aulagnier viveu no Egito durante a II Guerra Mundial e, posteriormente, formou-se em medicina em Roma. Radicada em 1950 em Paris, onde terminou sua especialização em psiquiatria, analisou-se com Jacques Lacan de 1955 a 1961 e foi uma de suas discípulas prediletas, assumindo o cargo de chefe do Departamento da Escola Freudiana de Paris. Em 1969, após desavenças com Lacan sobre a aceitação de candidatos – o chamado passe – deixou a instituição, associando-se a outros analistas dissidentes que formaram o “Quarto Grupo”, denominado atualmente Organização Psicanalítica da Língua Francesa, com enfoque sociológico e culturalista.

Durante os dez primeiros anos como psiquiatra, trabalhou com pacientes psicóticos, tendo organizado vários seminários no Hospital Sainte-Anne, em Paris, que acabou sendo o principal local da transmissão de suas idéias. Posteriormente, Aulagnier veio a conceber uma renovadora proposta metapsicológica, dando origem a um modelo de aparelho psíquico a partir de suas observações e experiências com pacientes psicóticos. Uma das contribuições originais de Aulagnier é o conceito de processo originário, que considerou anterior ao processo primário. Para a autora, a atividade psíquica é regida por três modos de funcionamento: os processos originário, primário e secundário, cada qual com uma forma específica de inscrever suas representações no psiquismo.

O processo originário inscreve suas representações sob a forma de pictogramas e tem como ponto de partida a boca e o seio – momento inaugural da atividade psíquica para a autora. A boca e o seio constituiriam uma unidade indissociada que forma uma zona sensorial chamada por ela de imagem do objeto soma complementária, responsável pela organização do pictograma. Para Aulagnier, o psiquismo do bebê não registra que o estímulo gerador da representação veio do mundo externo, e sim que foi engendrado por ele próprio. Todos esses conceitos adquiriram importância para o entendimento e manejo clínico dos processos psicóticos.

Formulou também a chamada teoria do encontro, que se dá entre o corpo do bebê, o corpo da mãe e o inconsciente materno. Essa situação de encontro mãe-bebê possibilitará as três produções psíquicas relativas aos processos originário, primário e secundário. Para Aulagnier, as pessoas têm uma potencialidade psicótica que pode vir ou não a se manifestar por meio dos sintomas. Sobre a relação mãe-bebê, Aulagnier disse que começa antes mesmo de a criança existir, já pelo lugar que ela ocupa no inconsciente materno enquanto objeto de desejo, o que poderá ser elucidado somente por uma análise. Pode-se tomar como ponto de partida dessa relação o momento da fecundação. Segundo a autora, ser mãe representa, para toda mulher, a experiência onde ela reviverá da maneira mais forte o que foi sua primeira relação. No caso de a mulher ter vivido essa experiência de forma profundamente perturbada, sua gravidez pode ser a causa de um retorno maciço do recalcado, que, se não conduz a uma psicose, torna psicogênica sua relação com a criança.

A psicanalista casou-se primeiramente com um francês de Borgonha, de quem herdou o sobrenome Aulagnier, e com ele teve seu único filho, que também se formou em psiquiatria. Depois de alguns anos, separou-se e casou com o filósofo, escritor e psicanalista Cornelius Castoriadis, com quem compartilhou trabalhos e discussões teóricas. Após anos de casamento, separou-se de Castoriadis. Aulagnier faleceu no dia 31 de março de 1990, em Paris, deixando em todos os que a conheceram a lembrança de seu interesse incansável e apaixonado pela psicanálise e também pelas questões fundamentais do ser humano.

Referências Bibliográficas:

Resenha elaborada por Helena Daltro Pontual, membro do Instituto de Psicanálise Virgínia Leone Bicudo da Sociedade de Psicanálise de Brasília.