
Febrapsi Notícias - Gostaríamos que nos desse um pouco de seu perfil, aspectos de sua história pessoal, formação psicanalítica e do movimento psicanalítico.
Cursei Medicina, migrei para a Argentina para fazer residência em Psiquiatria no José Borda (hospital público psiquiátrico para homens, com quatro a cinco mil pacientes, padaria, ateliês quase uma comunidade). O serviço de admissão de agudos também atendia mulheres. Ao lado tem outro hospital (Mojano), só para mulheres. Lá também estavam outros brasileiros: Luciano Reichmann, de Erechim; Marco Aurélio Andrade e esposa, estão lá até hoje; além de Márcio, de São Paulo. Residência de três anos, clássica, plantões, internação de dois anos e ambulatório no 3º ano. Ambulatório no processo de externação e pacientes externos. Experiência interessante: no caminho da alta tinha muita receita, inventamos o “grupo de medicação” para renovar as receitas no grupo e humanizar o encontro “receita e até a próxima”. Lá mesmo fiquei dois anos mais como instrutor.
Fui também aprovado no Hospital de Lanus. A residência foi formalizada, oficializada pela Faculdade, no Brasil. Fiquei no Borda porque lá tinha casa e comida, eu morava no hospital, mas eu não recebia nada. Houve uma integração importante com os demais residentes. Depois de seis anos na Argentina, fiz seleção na Associação Psicanalítica Argentina.
Fui para a Argentina solteiro e voltei casado com uma argentina e com dois filhos. Em 1985, como membro associado da APA, nos instalamos em Porto Alegre. A APA tem sistema de pontos, que te dá a titularidade e, por esse sistema, passei a ser membro titular da APA.
Quando iniciamos a sociedade (SBPdePA) aqui em Porto Alegre, eu já era membro titular da IPA, através da APA. Outros titulares eram Messias, Petrucci, Marco Aurélio Rosa.
FN - Você foi um dos pioneiros da SBPdePA. Que funções você desempanhou na instituição?
Fomos os fundadores. Passamos a grupo de estudos reconhecido pela IPA em 17 de dezembro de 1992, na reunião do Conselho Diretivo em Nova York. Em 1993, no Congresso de Amsterdã, o grupo foi referendado. Fizemos um pouco de tudo. Secretário, presidente, secretário do instituto, diretor do instituto, além de pintor de paredes. Sou fiador da casa da sede até hoje.
FN - Como tem sido nos últimos tempos a sua participação institucional em âmbito nacional e internacional?
Quando presidente da SBPdePA, tive participação na então ABP, atual Febrapsi, como diretor de Publicações e Divulgação da ABP 2006-2007. Tive participação também no Comitê da IPA sobre Excluídos, cujo chair foi Marcelo Viñar.
Com a APA, mantenho vínculo permanente e tenho participado todos os anos do Simpósio Anual da APA como assistente, com apresentação sistemática de temas livres. Só não fui no ano que coincidiu com o evento da ABP. Este ano já fui a um encontro científico.
Estou selecionando todos os trabalhos apresentados para fazer um pequeno livro, no modelo do primeiro livro, que é Amanhã, Psicanálise, que nasce de uma forma quase ingênua, por um pedido de escrever algo para o Boletim do CEPdePA (Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre), a partir do clima da matéria do Jornal ABP sobre frequência de sessões. Em motivadora meia página, falei sobre “O trabalho de colocar o paciente em tratamento”. Essa “coluna” se manteve, falando sobre o valor da entrevista, do contrato etc. Alguém me disse que eu estava com um livro pronto. Encarei e, depois de mais trabalho, finalmente publiquei. Está publicado no Brasil (Casa do Psicólogo) e na Argentina (Biblos). Nas jornadas da APA tenho 15 a 16 trabalhos e o primeiro deles foi “La pareja, pareja”, ainda como candidato. Foi minha primeira publicação, no boletim de candidatos da APA. Era sobre um casal cujo homem não podia desvirginar a mulher e isso foi feito por cirurgião. “APA – Caráter e Narcisismo”, publicado na Revista de Psicoanálisis, em 1985, número 2.
FN - Do ponto de vista político-institucional, quais são seus planos intra-Febrapsi (integração) e extra-Febrapsi (Sociedade de Psiquiatria, movimento Articulação)?
Três setores – Febrapsi como federação: desenvolver espírito federativo, seguir o movimento como vem sendo realizado, seguir neste ramo. Apoiar o intercâmbio e crescer tudo o que for possível na relação com federadas, núcleos, realização de eventos. A Febrapsi existe para isso. Temos uma ideia e a faremos operar a partir de uma coincidência favorável. É que em 2010 festejaremos os 100 anos da IPA. Em cada lugar que tenhamos federadas, aproveitando esse evento, divulgaremos o profissional que formamos para a comunidade local, explicaremos sobre nossa formação, que tipo de profissionais colocamos à disposição da comunidade, lá onde há sociedade, grupo de estudos, núcleo, com o apoio do nosso setor jornalístico.
Este vai ser um programa central da política intra-Febrapsi. Esta será a nossa menina, o profissional ligado à IPA. Outra questão é a concentração especial, como em nosso congresso.
Extra-Febrapsi: Já temos tradição, que a Febrapsi mantém, com outras entidades, com o Movimento Articulação, que será mantido, inclusive temos colega no comitê diretor. Vamos dar sequência a esse vínculo e, se possível, ampliá-lo.
Outra responsabilidade é com o Movimento Latino-americano, Fepal, até porque a próxima administração da Fepal é do Brasil – vinculação muito importante.
Com nossa entidade maior – a IPA – também. Vai finalizar a administração de um brasileiro também na Federação Europeia e Americana.
O Capsa (Programa da IPA) foi o mais elogiado. Vamos trabalhar e defender sua manutenção, com bons resultados.
Com ABPsiquiatria – antes nos confundíamos até com a sigla –, agora cada um tem seu nome, simbiose. Saímos disso – Febrapsi e ABP e, talvez, nosso intercâmbio possa crescer, com saída simbiótica e diferenciação.
FN - Sobre o apoio a núcleos e a transformação dos grupos de estudos, já há algum projeto?
Em breve teremos duas novas sociedades: Belo Horizonte e Fortaleza, que hoje são grupos de estudos. Seremos então 14 sociedades. Os núcleos são dependentes das federadas. A Febrapsi deve estimular, sempre cuidando para que os núcleos sejam vinculados, e temos que respeitar isto, indo com cuidado através das sociedades.
FN - Nosso evento maior, o Congresso Brasileiro, será em Ribeirão Preto, em 2011. O que está sendo projetado pela sua futura gestão para o congresso?
Já estamos pensando: temos uma jovem Sociedade Brasileira de Psicanálise, o local e a data – setembro de 2011. Temos grande expectativa, já que Ribeirão Preto tem tradição em organizar grandes eventos. A federada de Ribeirão Preto tem organizado a Bienal de Ribeirão Preto, com 700 inscritos. Vamos estar num lugar com tradição de sucesso. Falta o tema, mas estamos pensando nele.
A IPA (em Chicago) já fechou o tema do próximo congresso, que será no México, em julho de 2011. Talvez seja um guia a partir do qual vamos nos mover. Em 15 de novembro pode ser que já tenhamos o tema um pouco mais elaborado. Se tivermos a felicidade de conseguir algum como o do último congresso, Compulsão... Esse nome atraiu muito, foi um achado. Temos um desafio para fazer algo igual. Estamos pensando com a nova Diretoria Científica e comissão local, mantendo a tradição do Congresso de Porto Alegre, que foi um marco. Mas não queremos fazer um campeonato.
Colegas da IPA pediram que eu opinasse – no Congresso de Chicago – em uma das mesas. Estive comentando trabalho clínico, junto com quatro colegas. Éramos cinco. Era muita gente. Talvez se não fossem tantas pessoas, eu não estaria lá, mas alguém tem que ficar de fora. Era um material clínico excelente, mas faltou tempo para discussão.
Eu vou levar essa questão. Não sei se vamos poder administrar. Lembro que, no Congresso em Brasília, não houve tempo. Assim que o apresentador concluía sua fala, o presidente da mesa encerrava o tema pois o tempo havia terminado.
FN - Haverá conciliação entre o espaço de apresentadores e a discussão?
Vamos perseguir esta ideia tenazmente, privilegiando a discussão científica. É um momento de interromper atividades, investir, e o colega tem que sentir que vale a pena. Incentivaremos.
Freud em seu trabalho “Personajes psicopáticos en el escenario”, publicado em 1942, mas escrito em 1905-6, sobre a necessidade de ator e plateia, dizia: se apresentador é ator e plateia é o ouvinte, posso dizer que um não existe sem o outro. Esperamos ter a felicidade de encontrar um título que convoque tanto quanto Compulsão. Ribeirão Preto tem tradição e esperamos fazer um evento à altura dos anteriores, o que vai depender das federadas, núcleos. Participação da Febrapsi e do Articulação.
A mesa com a dirigente do Magazine Luiza, no congresso do Rio, foi inédita, foi um achado, e manter esse espaço de interface é muito importante.
FN - Quais são os planos da diretoria em relação aos institutos e ao jornal temático, bem como à participação dos diretores de institutos em eventos?
Pergunta excelente. Penso que é muito importante.
Do ponto de vista estatutário: Conselho de Presidentes com institutos, não há nada. Já houve reunião de institutos, patrocinada pela então ABP, que teve grande impacto. Vou lançar no Conselho de Presidentes a ideia de dar um lugar dentro da Febrapsi para a educação psicanalítica. A Febrapsi tem que cuidar disso, respeitando cada federada. A Febrapsi não pode abraçar tudo, mas essa questão é importante.
Isto dá ensejo para falar do pré-congresso, que não tem preenchido as expectativas. Por que não está bem? O modelo esgotou? Como fazer para mudar isso? Com reuniões de Instituto, mudando o pré-congresso?
FN - Colocamos o jornal à disposição para suas considerações finais.
A primeira preocupação é compor um pensamento, independe do lugar. O lugar é a tarefa de cada um. Mas devemos compor uma ideia, não um pensamento único, pois ele é mortal. A diferença é que cria. Diferentes posições. Que a diversidade tenha lugar, mas a meta comum precisa ter força. O pensamento único não é útil, é temático e a diversidade é criativa.